quinta-feira, 7 de julho de 2011

Ciganos são heterogéneos e diferenciam-se entre si


Tradições culturais variam consoante os grupos
Tradições culturais variam consoante os grupos
Com maior ou menor intensidade, os ciganos continuam a ser vítimas de preconceitos e a ser estigmatizados pelos não ciganos, um pouco por todo o lado, dando-se assim azo a um afastamento e falta de interacção. Contudo, esta realidade também existe dentro da própria comunidade cigana, que é “muito heterógenea”, sendo que há grupos que se diferenciam entre si e negam a autenticidade da identidade cigana a outros.
Este cenário foi registado por Lurdes Nicolau, doutoranda da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), que nos últimos cinco anos investigou a vida de pessoas de etnia cigana, nomeadamente no concelho de Bragança. Neste estudo, a também professora de ensino básico propôs-se “a conhecer o grupo étnico cigano que maioritariamente se encontra em Trás-os-Montes e compreender a interacção que o mesmo estabeleceu com a população maioritária, tanto no meio local -urbano e rural -, como no que concerne à instituição escola”.

Em declarações ao «Ciência Hoje», Lurdes Nicolau explicou que este estudo surgiu depois de ter constatado que “os ciganos de Pamplona [onde deu aulas a crianças desta etnia] eram diferentes dos que conhecia em Trás-os-Montes”. Ao investigar sobre o assunto, deparou-se com “a inexistência de bibliografia científica acerca dos ciganos desta região portuguesa”, pelo que decidiu “inteirar-se da situação e perceber qual a situação do nordeste transmontano”.
Lurdes Nicolau
Lurdes Nicolau
Esta foi também uma forma que a aluna da UTAD encontrou para “’desomogeneizar’ os ciganos de Portugal”, na medida em que eles são diferentes entre si. “Não vamos generalizar. Devemos tratá-los como indivíduos e não como um só grupo”, alertou. “Temos preconceitos e criamos estereótipos. Também os tinha quando comecei a contactar com eles, mas há de tudo. Se os excluirmos, cada vez ficam mais excluídos, pelo que é preciso desmontar preconceitos acerca deles”, disse ainda.
Gitanos e Chabotos
Esta investigação permitiu verificar que, em Trás-os-Montes, há dois grupos que se auto-diferenciam entre si, através de aspectos culturais, religiosos, económicos, físicos, morais e linguísticos. Trata-se dos Gitanos, grupo maioritário e que corresponde aos feirantes, e dos Chabotos, que outrora eram “’ambulantes’”. São estas as denominações que cada um dos grupos atribui ao outro, sendo que ambos se auto-denominam ciganos.
De acordo com Lurdes Nicolau, nenhum deles reconhece o outro como cigano, não havendo assim qualquer tipo de interacção. “Pelo contrário, as fronteiras estão bem demarcadas, de forma que locais frequentados por uns são evitados pelos outros”, reforçou. Além disso, atribuem características distintas aos demais. “Os Gitanos são muito agressivos, de acordo com os Chabotos. Já estes são muito sujos, de acordo com os primeiros”, exemplificou.
Aspecto das barracas e casas degradadas (Imagem: Lurdes Nicolau)
Aspecto das barracas e casas degradadas (Imagem: Lurdes Nicolau)
Nesta zona transmontana também foi identificado outro grupo de ascendência cigana: os caldeireiros. “Devido à falta de elementos no seio do próprio grupo, casaram com aldeanas e, na actualidade, perderam ou omitem os elos com os seus ancestrais. Também eles eram ‘ambulantes’ e desenvolveram um dialecto que denominam ‘latim’ e, segundo os mesmos, difere do que falam os Chabotos e os Gitanos”, explicou a investigadora.
Do meio urbano ao rural
Os ciganos que hoje vivem nos meios urbano e rural eram, até há 30 anos, do mesmo grupo. Segundo a professora, “quando começaram a sedentarizar-se é que se separaram”, vivendo agora em realidades distintas.
Aqueles que vivem nos três bairros urbanos estudados, enfrentam “condições de extrema pobreza” e “vivem isolados nos bairros, sem relações inter-culturais e sociais”. Contudo, Lurdes Nicolau sublinhou que esta realidade não deve ser generalizada e corresponde apenas ao foco do seu estudo, podendo por isso haver outros ciganos do meio urbano que vivem noutros moldes. “Há alguns com boas condições, não vamos tipificar”, sendo que ela própria é conhecedora de exemplos disso.
Nas aldeias, as condições sócio-económicas são também precárias, mas “algumas casas são razoáveis”. No entanto, alguns ciganos estão bem integrados.

Alunos de etnia cigana numa escola de Bragança (Imagem: Lurdes Nicolau)
Alunos de etnia cigana numa escola de Bragança (Imagem: Lurdes Nicolau)
“Numa das aldeias, dos nove agregados estudados, seis eram mistos, o que é sinal de interacção e integração”, afirmou, sublinhando que noutras localidades já eram excluídos, pelo que ciganos e não ciganos tinham o seu próprio espaço, “não se misturando”.
Quanto à escola, Lurdes Nicolau constatou “o que se verifica ao nível nacional e internacional”, disse, explicando que “no ensino básico há uma grande concentração de alunos de etnia cigana, mas a partir daí os números baixam, dados o abandono escolar e o absentismo muito altos”. Para demonstrar a discrepância relativamente à restante população, a investigadora referiu que, em Bragança, o insucesso escolar dos alunos ciganos está estimado em 45 por cento, enquanto a taxa para os restantes alunos é de 1,7 por cento.

Por Carla Sofia Flores em Ciencia Hoje

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Espécies desconhecidas estão em hotspots

Maioria das espécies ainda não descobertas vive em regiões consideradas prioritárias para a conservação da biodiversidade, indica pesquisa publicada na PNAS
A maioria das espécies ainda não descobertas vive em hotspots conhecidos – regiões que foram identificadas pelos cientistas como prioritárias para conservação da biodiversidade. A conclusão é de um estudo que será publicado em breve na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

De acordo com os autores da pesquisa, os resultados reforçam que os esforços recentes de conservação têm sido bem direcionados e deverão ajudar a diminuir as incertezas a respeito das prioridades na área. Outra conclusão do trabalho é que o risco de extinção para muitas das espécies ainda não conhecidas é maior do que se estimava até então.

“O estudo mostra que a maioria das espécies desconhecidas se esconde em algumas das paisagens mais ameaçadas no mundo. Isso aumenta significativamente o número de espécies ameaçadas ou em risco de extinção”, disse Stuart Pimm, professor da Nicholas School of the Environment na Universidade Duke e um dos autores.
Com recursos limitados e ameaças crescentes à natureza, pesquisadores que atuam no estudo da biodiversidade há tempos decidiram identificar áreas nas quais as ações de conservação pudessem salvar o maior número de espécies.
Essas áreas consideradas prioritárias são chamadas de hotspots da biodiversidade: locais com número incomum de espécies endêmicas e nos quais as taxas de perda de hábitat são extremas. O problema é que o conhecimento das espécies é seriamente incompleto, com um número muito elevado de espécies desconhecidas.
“Sabemos que temos um catálogo da vida incompleto. Se não conhecemos quantas espécies existem, ou onde elas vivem, como poderemos estabelecer locais prioritários para conservação? E se as áreas que ignoramos forem as que têm mais espécies desconhecidas”, disse outro autor do estudo, Lucas Joppa, da Microsoft Research em Cambridge, Reino Unido.
Para lidar com esse dilema, Joppa e colegas criaram um modelo computacional que integra efeitos taxonômicos durante o transcorrer do tempo de modo a estimar quantas espécies de plantas com flores – que formam a base do conceito de hotspot de biodiversidade – ainda existem para serem descobertas.
Em seguida, o conjunto de dados foi comparado com os dados existentes de regiões atualmente identificadas como prioritárias para a conservação. Os dois conjuntos de dados bateram.
O modelo estimou que seis regiões identificadas como hotspots – do México ao Panamá; Colômbia; do Equador ao Peru; do Paraguai ao sul do Chile; o sul da África; e Austrália – contêm 70% de todas as espécies desconhecidas.
“É um grande alívio saber que os locais em que mais investimos recursos são os mesmos que abrigam a maioria das espécies ainda não descobertas”, disse David Roberts, da Durrell Institute of Conservation and Ecology na Universidade de Kent, Reino Unido, outro autor da pesquisa.
“Os resultados do estudo realmente validam todo o tempo e esforço que temos colocado na luta pela preservação da biodiversidade global. Agora, podemos continuar a tentar salvar esses locais únicos e ameaçados”, disse Norman Myers, da Universidade Oxford, que lançou o conceito de hotspot em 1998.
O artigo Biodiversity hotspots house most undiscovered plant species (doi/10.1073/pnas.1109389108), de Lucas Joppa e outros, poderá ser lido na PNAS em www.pnas.org/cgi/doi/10.1073/pnas.1109389108.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Viajar de Paris a Nova Iorque em apenas 1h45

Sonic Star: Avião mais rápido do mundo apresentado em Paris

Protótipo deverá iniciar voos experimentais em 2014.
Protótipo deverá iniciar voos experimentais em 2014.
O Sonic Star é o avião mais rápido do mundo e foi recentemente revelado ao público no Musée de L'Air et de L'Espace, no Aeroporto de Paris, Le Bourget. Pode fazer a ligação entre Paris e Nova Iorque em apenas 1h45, ultrapassando “duas vezes” o seu polémico antecessor, o Concorde – que precisava de 3h45 para o mesmo trajecto.

Os técnicos da HyperMach, aqui apresentado pela Aerospace Industries, garantiram mesmo, durante a 49ª Feira Internacional de Aviação, que pode dar a volta ao mundo em apenas cinco horas e que é possível ver a curvatura da Terra durante um voo. Este revolucionário modelo tecnológico funcionará com baixo consumo de combustível, o que contribuiu para o bem-estar ambiental e económico, relativamente a outros meios de transporte aéreos (que percorrem a mesma distância).
Ainda não se sabe qual será o valor para viajar neste primeiro avião híbrido a alta velocidade supersónica. No entanto, sabe-se que apenas estará reservado para uma pequena elite, já que não será um avião de linha, mas uma espécie de jacto privado com capacidade para transportar 20 pessoas. O SonicStar dispõe de luxuosas instalações e irá gerar uma quantidade massiva de energia eléctrica usando as propriedades electromagnéticas das turbinas.

Desde o desaparecimento do Concorde, em 2003, vários engenheiros tentaram conseguir recriar carburadores económicos de alta velocidade. A empresa a cargo do projecto anunciou que o supersónico atingirá Mach 3,5 – uma velocidade suficiente para viajar entre Nova Iorque e Sidney em pouco mais de quatro horas.

O único problema é que o sucessor do Concorde só deverá estar em condições de cruzar os ares dentro de dez anos, por volta de Junho de 2021. Contudo, o primeiro protótipo deverá iniciar voos experimentais em 2014.

terça-feira, 14 de junho de 2011

domingo, 12 de junho de 2011

Entediado? Talvez essa seja uma coisa boa


Para que serve o tédio? Nada, é claro. Se você acha que esse sentimento é o pior do mundo, há quem discorde. Peter Toohey, autor do novo livro “O Tédio: Uma História Animada” (tradução livre para “Boredom: A Lively History”), argumenta que pode haver alguns benefícios surpreendentes em experimentar o tédio. Se você não consegue imaginar quais, leia essa entrevista:
O que poderia ser um benefício do tédio?

Peter Toohey:
O tédio é primo da repulsa. Quando as pessoas estão entediadas, elas ficam meio desgostosas, dizem que “não aguentam mais” ou que “estão cheias”. Então, o que o tédio é projetado para fazer é protegê-lo contra determinadas situações que possam ser prejudiciais. Ele faz você mudar sua situação. É um aviso para agir. Uma das vantagens mais evidentes é que muitos ligam o tédio à criatividade. Você tem que chegar a miséria absoluta para algo sair de seu cérebro. Um monte de gente fala sobre o valor do devaneio, do sonhar acordado; isso pode ser o produto de situações entediantes ou meio chatas, e suas melhores ideias podem surgir daí.
Qual a sua definição de tédio?

PT:
Eu acho que é o que eu sugeri: uma sensação leve de desgosto. As pessoas ficam desgostosas com o tédio. Ele é causado por circunstâncias temporariamente inevitáveis ou previsíveis. Se imagine preso em uma sala de aula ouvindo uma longa palestra. Mas é temporário, e isso não vai lhe causar um grande dano. O oposto do tédio é estar completamente envolvido em uma atividade que lhe absorve.
Algumas pessoas pensam que o tédio é um problema moderno. Isso é verdade?

PT:
Eu não penso assim. Se o tédio é uma emoção, então ele está lá por um bom propósito evolutivo. Todos nós vamos senti-lo, alguns menos do que outros. Ele é um produto do esclarecimento, e aparece nessa palavra pela primeira vez no século 17. Não se falava muito sobre isso na Grécia ou em Roma, mas há exemplos. Há uma inscrição em uma cidade italiana onde a população local agradece a uma personalidade por salvá-la do tédio eterno, em latim. Isso no século 2.
Será que algumas pessoas são mais propensas ao tédio?

PT:
Dizem que sim. Isso está ligado ao nível de dopamina, um neurotransmissor (ligado tanto ao tédio quanto a excitação). Quando a dopamina é baixa em uma pessoa, um de seus sintomas é o tédio. Além disso, há um teste chamado “teste de propensão ao tédio”, usado por psicólogos o tempo todo, no qual as pessoas que têm baixa pontuação têm baixos níveis de dopamina.
Existem dicas para superar o tédio?

PT:
Não. Há a dica “mantenha-se ocupado”. Isso é bom, mas se você estiver realmente entediado, você não consegue se manter ocupado. Há uma relação estabelecida entre a monotonia e a plasticidade do cérebro: a monotonia é ruim para a neuroplasticidade. Mas como você incentiva a plasticidade do cérebro? Parece que a melhor maneira de fazer isso é o exercício aeróbico. Talvez uma quantidade justa de exercício na vida de uma pessoa pode torná-la um pouco a prova de tédio. É triste, né?
[MSN]

quinta-feira, 9 de junho de 2011

«Novo Capítulo»


Este domingo fechou-se um capítulo na história da democracia portuguesa com a saída de cena de José Sócrates e virou-se a página para um futuro - que se adivinha difícil - com Passos Coelho ao leme do Governo.
A vitória do PSD foi bastante mais clara do que se antecipava e a derrota do PS mais expressiva. Mérito para o líder social-democrata, quanto mais não seja por ter conseguido descolar após um início de (pré) campanha titubeante. Ao «silenciar» Nobre e Catroga, Passos Coelho conseguiu assumir o protagonismo que necessitava para vencer e esvaziou dois dos maiores «aliados» dos socialistas...isto apesar de uma campanha eleitoral extremamente fraca, por parte de todos.
Sócrates, obviamente, é o grande derrotado nas urnas. Após a improvável vitória de 2009, mais por demérito de Ferreira Leite, o líder socialista não conseguiu repetir o «número» e deixa o PS com o pior resultado eleitoral desde 1987 (22,24%), quando Cavaco conquistou a primeira maioria absoluta.
A verdade é que Sócrates mostrou-se gasto na campanha, em particular após debate com Passos Coelho, e só a máquina do PS conseguia disfarçar (mal) a derrota.
A eleição de hoje tem outro derrotado: Francisco Louçã. O retrocesso do Bloco para os níveis de 2005 numa conjuntura favorável aos partidos que se alimentam do voto de protesto pode indicar o princípio do fim do BE, um case-study para politólogos em que trotskistas, maoístas e outros istas andavam todos juntos numa união contra-natura.
Para Paulo Portas, o veterano dos líderes partidários nacionais, os resultados têm um sabor agridoce, com uma subida nos resultados mas com o PSD a conseguir números muito acima do desejado pelos democratas-cristãos. O peso negocial do CDS-PP fica aquém das expectativas de Portas...
Jerónimo de Sousa conduziu a CDU a mais um resultado consistente com o bónus de ultrapassar o BE.
Quem certamente suspirou de alívio foi Cavaco Silva, que poderia ter um cenário catastrófico na segunda-feira com PSD e CDS-PP a não conseguirem maioria absoluta e a necessitarem de um PS com quem se recusavam a colaborar...
Uma nota ainda para a abstenção, a mais elevada de sempre em legislativas, sinal de que o divórcio entre eleitores e eleitos não cessa de crescer. Para muitos portugueses, a paciência esgotou-se para enfrentar as eleições com a lógica do «mal menor». Não vão votar, pura e simplesmente.
Agora chegou a altura de ver o que Passos Coelho vale como líder de Governo. Primeiro, exige-se-lhe que escolha um Executivo com qualidade; segundo, que apresente um programa de governação coerente com o que prometeu; terceiro; que saiba travar os apetites por todo o tipo de cargos entre as hostes laranjas. Ah, e já agora, que mostre firmeza perante aquela figura ímpar que reina na Madeira. 

 Pedro Curvelo

terça-feira, 7 de junho de 2011

Notas de despedida‏

1. Enquanto professor e enquanto cidadão português estou particularmente satisfeito por ver partir, espero que para sempre, o político português que eu considero ter sido o pior primeiro-ministro, desde 1974. Já o disse, como muitos outros o disseram (e primeiro do que eu), e hoje repito: Sócrates não só governou desastradamente o país, culminando essa governação com a bancarrota, como fez com que o discurso e o ambiente políticos descessem a níveis inimagináveis. Para além disto, com Sócrates, a falta de autenticidade, de seriedade e de competência andaram sempre de mãos dadas com a mais gigantesca operação de marketing (leia-se encenação e falsificação da realidade) que o país alguma vez presenciou. Simultaneamente, criou e desenvolveu um mastodôntico polvo político que tudo quis dominar e quase tudo dominou. Esse polvo alimentou e foi alimentado por um enorme exército de voluntários zelotas que, nos diversos organismos do Estado, se transformaram em candidatos a pequenos déspotas dispostos a tudo. Os tentáculos da governação do Partido Socialista atingiram uma dimensão que eu não julgava possível, em democracia.

2. A Educação foi, para além das Finanças, o domínio onde todos os malefícios da política de Sócrates mais se fizeram sentir. Na realidade, foi na política educativa que se concentrou tudo o que havia e houve de pior na sua governação: arrogância sem limites, incompetência inimaginável, ignorância e aventureirismo. Em 30 anos de docência, nunca tinha assistido a nada de semelhante. Portugal vai demorar décadas a recuperar de tanta estolidez política.

3. O discurso de partida de Sócrates foi mais uma encenação indecente. Sem a noção do grotesco, o arrazoado de falsidades que proferiu incomodou, nauseou. No decurso daquela infindável representação, só uma coisa terá sido verdadeira: o alívio que manifestava por não ter de ser ele a reparar a medonha herança que lega ao país. Ele sabe o estado em que deixa Portugal, sabe o mal que lhe fez, sabe a miséria que vamos passar, por sua responsabilidade. Sabe isso melhor do que ninguém, e, por essa razão, sente alívio — quando devia sentir vergonha, mas Sócrates desconhece esse sentimento.

4. Ao fim de seis anos, Sócrates — o homem que diariamente inventava recordes — conseguiu o seu verdadeiro e derradeiro recorde: conseguiu que o país acumulasse por ele um nível de desprezo que não acumulou por nenhum outro político em 37 anos de democracia.
Sócrates vai embora. Espero que nunca mais volte. Espero que tenha o bom senso de emigrar definitivamente. Portugal será, seguramente, um país melhor sem ele.


In, "O Estado da Educação"