quinta-feira, 28 de maio de 2009

MULHER DORMINDO

Apenas a alma dorme o corpo insone trabalha os minérios do sono sustenta o pânico o naufrágio na penumbra fogo e relva os músculos dançam debruçados sobre o nada os olhos não os olhos sonham à sombra da alma - e sobrevivem ao dilúvio.

'Fernando Fábio Fiorese Furtado'

sábado, 18 de abril de 2009

A FABULA DE COMO O PS SE TRANSFORMOU NUM ARQUIPELAGO DE PEQUENOS INTERESSES

Alberto Caeiro, um poeta que estava dentro do Fernando Pessoa, disse uma vez que "teve um sonho como uma fotografia". Pois eu, meus amigos, tive um sonho como uma BD. Era assim:
Havia um imenso continente chamado Socialândia - ou PS - onde viviam mais ou menos felizes muitas pessoas. Um dia, esse continente foi afectado pela queda de um meteorito, accionado por uma força chamada maioria absoluta, e fraccionou-se em diversas ilhas. A maior delas ficou como centro de decisão; as outras, eram muito mais pequenas e ficaram isoladas. Umas muito longe da maior, outras mais perto. No meu sonho eu sobrevoava essas ilhas e ia falando com os náufragos, ouvido as suas queixas.
Numa das ilhas mais longínquas, estava Ferro Rodrigues rodeado de números. Queixava-se de que tinha tentado voltar ao centro, mas que era difícil. Não só por que a sua ilha era agradável, como porque na maior estava lá um tipo armado em São Pedro, chamado Santos Silva, que decidia quem pertencia e não ao verdadeiro PS.
Noutra ilha, também distante, estava João Cravinho, rodeado de projectos. Disse-me que tinha acenado várias vezes, mas que ninguém lhe ligava. Além disso, tinha receio de que o Lello, outro dos guardiães, o insultasse.
Guterres viva numa ilha rodeado de miseráveis aos quais distribuía conforto. Não queria voltar. A implosão, disse-me, tinha sido boa para ele, porque estava farto daquela gente.
Curiosamente, esta era também a opinião de Jorge Sampaio, que estava rodeado de tuberculosos aos quais tentava curar. Não lhe apetecia voltar ao centro...
António Vitorino estava numa ilha pequenina, mas cheia de negócios e com um programa num canal de televisão. Dizia umas coisas, organizava outras e, de vez em quando, conseguia chegar à ilha maior. Porém, voltava logo à sua. Dizia que estava bem assim.
Noutra ilhota, cheia de camiões, escavadoras e guindastes, estava Jorge Coelho. Esse não dizia nada. Fingia que não existia e recomendava o mesmo aos outros.
Um pouco adiante, estava Mário Soares com uma fundação. De vez em quando dizia umas coisas que o Santos Silva não gostava, mas mais nada.
Jaime Gama estava numa ilha mais pequena do que ele próprio e fazia elogios estranhos aos inimigos da ilha grande. Gama era um mistério.
Numa ilha de dimensões apreciáveis estava o Manuel Alegre, que o Santos Silva detestava. Alegre gostava de não ser confundido com os da ilha grande. Tentava a independência, mas faltavam-lhe recursos.
Por último, no centro, estava Sócrates rodeado por Vara, por Santos Silva, por Lello e por milhares de acólitos. Naquela ilha incensava-se o chefe.
Havia quem se lembrasse dos tempos do continente, quando Ferro, Cravinho, Guterres, Sampaio, Vitorino, Coelho, Soares, Gama e Alegre faziam parte da vida da comunidade e tinham opiniões que eram escutadas. Mas mal Santos Silva (ou outros dos guardiães da nomenclatura) descobria que alguém se lembrava disso, arrumava a trouxa do dissidente e enviava-o para uma das muitas ilhas desertas que por ali existiam.
Foi assim que o que era dantes o PS se transformou num pequeno oceano cheio de contradições e num grande arquipélago de pequenos interesses.



‘Comendador Marques Correia’

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Canção dos Xutos e Pontapés está a ser transformada em manifesto contra Sócrates

Quem conhecer a discografia dos Xutos & Pontapés sabe que o cariz de intervenção e alerta social marcaram sempre presença nas letras das músicas. Mas os membros desta banda nunca quiseram vestir a roupagem de “líderes de uma revolução política”, nem apoiam, enquanto colectivo, qualquer partido político, assegura Zé Pedro, guitarrista dos Xutos. Por isso, é com alguma surpresa que o grupo assiste à euforia em torno da canção “Sem eira nem beira”, que integra o novíssimo álbum Xutos & Pontapés, disco de originais que foi lançado na passada semana.

Interpretar esta faixa, cantada pelo baterista Kalu, como um hino contra as políticas do Governo socialista é "deturpar" a intenção do grupo. "Não há aqui alvos a abater", diz, em resposta ao facto de o refrão começar com a frase Senhor engenheiro, dê-me um pouco de atenção. "Não queremos fazer um ataque político a ninguém. A letra exprime mais um grito de revolta. E é um alerta para o estado da Justiça e para uma classe política em geral que, volta e meia, toma atitudes que deixam os cidadãos desamparados", justifica.

O grupo não poderia prever o impacto desta faixa do disco que celebra os 30 anos de carreira do colectivo e que será apresentado pela primeira vez ao vivo a 24 de Abril, no Seixal. Neste contexto, Zé Pedro insiste que qualquer aproveitamento da música para criticar e contestar o Governo não receberá a "solidariedade" dos Xutos.

Zé Pedro, que, diz, até "simpatiza" com o primeiro-ministro José Sócrates, aponta ainda que quando Tim, o vocalista, escreveu o texto para a música de Kalu, tiveram de optar entre "senhor engenheiro" e "senhor doutor": "Optámos por engenheiro por causa do actual primeiro-ministro, mas nunca quisemos fazer um ataque político directo."

Tim escreveu a letra de Sem eira nem beira já em estúdio, conta Zé Pedro, e "em cima da hora". "Falámos que seria interessante trabalhar uma temática de intervenção e com alguma rebeldia, porque a música é do Kalu e seria ele a cantá-la", afirma.

Vídeos no YouTube

O guitarrista dos Xutos não viu o vídeo transmitido no Jornal Nacional da TVI, no passado fim-de-semana - imagens de José Sócrates em inaugurações e na Assembleia da República, tendo em fundo a música Sem eira nem beira. Mas Zé Pedro não tem dúvidas de que a ideia da TVI foi uma "deturpação" das "intenções" dos Xutos.

Depois da iniciativa da TVI já surgiram mais duas montagens em vídeo no YouTube: ambas utilizam a música dos Xutos e são ilustradas com Sócrates e vários membros do Governo; há imagens das manifestações dos professores, dos protestos dos alunos, do centro comercial Freeport, Manuel Alegre em versão "gato das botas" e um cartaz do filme Os Intocáveis com as personagens Sócrates, Isaltino Morais, Dias Loureiro e Fátima Felgueiras.

Os comentários, laudatórios, partilham a leitura política: "Esta música tem um destino: J. Sócrates"; "é nosso dever exigir políticos sérios e competentes"; "é uma música para puxar pelo povo, para 'dar força para lutar'"; "a letra retrata muito bem a nossa actual situação".

Sócrates não reage

O Gabinete do primeiro-ministro José Sócrates, através do assessor de imprensa Luís Bernardo, disse que nada havia a comentar. Também o PSD não comentou o assunto.
Já o PCP não considera que haja nenhuma situação especial em relação a este tema dos Xutos. O assessor de imprensa, António Rodrigues, declarou ao PÚBLICO: "Quanto à música, não queremos fazer termos de comparação, embora, na nossa opinião, nestes 30 anos, os Xutos tenham tido, além da qualidade de ordem estética, temas com preocupações sociais, cremos que esta música se insere nesses temas."

Mas não excluem poderem vir a usar esta música nas campanhas eleitorais que se aproximam. "Não há ponderação ainda feita sobre que músicas vamos usar, logo também não sobre esta em concreto", disse.

O líder do BE, Francisco Louçã, começou por comentar ao PÚBLICO que não só conhece a música como viu, "ao vivo, a música a ser apresentada, no concerto de aniversário dos Xutos". Mas também o BE não decidiu ainda sobre que músicas utilizará de campanha. Fazendo o paralelo em relação a outras músicas que foram vistas como contra o sistema, caso do FMI de José Mário Branco ou do Talvez... de Pedro Abrunhosa, Louçã considera que se trata de "momentos diferentes, que marcaram tempos diferentes". Particularmente, sobre este tema dos Xutos, Louçã considera que ele "revela um certo cansaço de uma certa geração com uma certa forma de governar" e conclui: "É um manifesto do Xutos. Provavelmente entrará depressa na iconografia popular. Admito que seja uma palavra de ordem de grandes manifestações, mas não creio que os partidos vão usar."

Por sua vez, o CDS relativiza o impacto político específico que a música possa ter. Diogo Feio começou por salvaguardar que não conhece a música: "Não ouvi, mas já ouvi falar da música". E afirma que, para o CDS, a liberdade artística é um valor por si: "Os autores muitas vezes utilizam imagens de crítica social e política de acordo até com as suas ideologias, e as músicas ficam com quem as faz", afirmou Diogo Feio. "A liberdade artística tem de ser respeitada e as pessoas que ouvem analisam e aderem ou não aderem. Há músicas mais críticas, outras menos, e de tempos a tempos surgem músicas assim."

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A NEVE

Na neve tu caminhaste
na neve tu pensaste
que tudo era possivel
quando amar e'
e nunca deixa de ser.
mas a neve atrasou-te
e a caminhada dolorosa tornou-se
paraste para pensar
e andaste para tras.

Como eu queria acompanhar-te
fonte da minha inspiracao
agua do meu mar
ar que respiro
fogo que me aquece
e terra que me segura...

Diz-me agora e somente
onde estao as forcas imbativeis
que busco no teu olhar
nada mais eu preciso
nada mais vou buscar.

A chave perdida
so tu a sabes encontrar...


'Sandrassm'

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

CANTO

Cazadora de almas llenas mi soledad. Cazadora de sombras qué triste verdad. Vas buscando secretos mi lujuria es cantar. Vas buscando los ríos de mis dedos se van.

‘Marcelo Arancibia’

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

AS SETE RAÇAS PERIGOSAS

ROTTWWILER

De linhagem muito antiga, é inteligente e tem capacidade de trabalho.

FILA BRASILEIRO

Cão de grande porte, com força e reputação de extrema agressividade. É uma das raças proibida em vários países.

DOGUE ARGENTINO

Criado após o cruzamento de 11 raças, é especialmente indicado para a caça ao javali e ao puma.

PITBULL TERRIER

Considerado um guerreiro, tem a agilidade dos terrier e a força dos Buldog, raça da qual descende.

STAFFORDSHIRE BULL TERRIER

Criado em Inglaterra no inicio do século passado, tem agilidade, físico poderoso e grande determinação.

TERRIER AMERICANO

É mais uma variante do Pitbull, tem características desportivas, de lealdade, vontade de agradar e orgulho.

TOSA INU

Criado no Japão, a raça foi registada em 1997. Ex-cão de luta, hoje de guarda, é paciente, audaz e corajoso.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

ONTEM E HOJE

“Afinal, onde e quando começa a prática de infidelidade?”

Há 50 anos estava uma tia-avó minha a passar umas pacatas férias nas termas com o marido quando um cavalheiro se aproximou da mesa onde a senhora bordava tranquilamente, pediu licença para se sentar e desde logo lhe começou a deitar a escada com elogios e salamaleques. A senhora, bem à antiga portuguesa, terá levantado o sobrolho de espanto para logo o carregar de fúria, cortando as investidas pela raiz com a clássica frase: “Então o cavalheiro não sabe que sou casada?” Pergunta retórica à qual o afoito D. Juan respondeu: “Sei sim, minha senhora. E até lhe sei dizer onde é que o marido de vossa excelência se encontra agora”. Isto, enquanto escrevia no verso do seu cartão de visita a morada de uma casa de passe conhecida na região, o qual lhe entregou.
Reza a lenda que a minha tia-avó leu o cartão, frente e verso, e sem nunca perder a compostura, foi buscar uma vela e logo ali o queimou em frente ao cavalheiro atrevido e intrometido para que este percebesse com quantos paus se faz uma canoa.
Décadas mais tarde, já viúva, era ela quem relatava o episódio das termas, sempre com o olhar vivo que a caracterizava e um meio sorriso de ironia que tem atravessado várias gerações na minha família. Quando questionada sobre as conhecidas infidelidades do falecido, respondia com um leve encolher de ombros: “Nunca lhe quis dar o prazer de ele saber que eu sabia que ele me enganava”.
Esta história tem mais de 50 anos. Ou talvez mais de cinco mil. E não é antiga, é apenas intemporal. Quando mulheres não fazem exactamente o mesmo hoje, apesar de, aparentemente, apregoarem o contrário?

A infidelidade faz parte da vida. é como um gene; pode ou não nascer connosco. Daí que expressões como fidelidade canina ou fiel por natureza sejam tão populares. Quando os casamentos já duram há décadas e o marido ou a mulher se transformaram num parente próximo como tantas vezes sucede, encarar as infidelidades do parceiro pode ser mais violento do que ignorá-las?
Talvez sim.
Mesmo para quem defende a verdade como valor absoluto e fundamental para o bom entendimento de um casal, os contornos de um comportamento infiel quase nunca estão bem delineados. Afinal, onde e quando começa a prática de infidelidade? Se o marido tem amantes ocasionais com as quais se encontra fortuitamente em motéis e a mulher mantém uma extensa e íntima correspondência por e-mail com o primeiro namorado do liceu, com quem vai almoçar uma vez por mês e a quem dá uns fortuitos beijos no carro, quem é que está a trair mais o outro?

Entra aqui o principio apostólico do pecado por pensamentos, actos e omissões. Pensar repetidamente em cometer uma infidelidade pode constituir per si um comportamento infiel? A lógica da subjectividade vence sempre e é sempre onde podemos encontrar menos lógica. Gostamos de argumentar que há uma diferença entre o pensamento e a acção, mas o que é facto é que se nos apercebermos que a pessoa com quem vivemos tem outro alguém, ainda tal presença viva apenas do sonho e da imaginação, isso pode doer tanto como um acto de infidelidade consumado. E como nem todas as almas nasceram para pegar o touro de frente, é apenas humano que se queime o cartão de visita com um meio sorriso de ironia.


‘Margarida Rebelo Pinto’